quarta-feira, 30 de abril de 2014

A primeira banda

  Quem aprende a tocar um instrumento e se desenvolve uma paixão pela música, eventualmente vamos querer tocar com outros músicos. Quantos de nós não nos lembramos da nossa primeira banda? Um grupo de amigos da escola e até com aquele segundo primo e o amigo dele que tinha aulas de bateria à dois meses e era o único que conhecíamos? Quem não se lembra de ensaiar horas a fio com um amplificador de 30 watts e instrumentos de gama baixa, enquanto se parava para falar mal daquele miúdo que tinha um pai rico e que lhe deu uma Gibson Les Paul e um Marshall JCM900 que ele usou para aprender a tocar as Dunas?
  Nessa altura dávamos o litro porque amávamos a música e tínhamos o sonho de chegar longe. Então juntávamos e tocávamos bocados de músicas enquanto fazíamos listas intermináveis de covers de nível muito superior às nossas capacidades, e que íamos usar para pôr toda a gente a gostar de nós mas que iam servir para dar a conhecer os nossos originais lá no meio. Quem não teve uma banda para tocar na festa da escola, mas cuja grande parte dos membros não tinha idade sequer para entrar num bar? Quem não se chateou com o baterista que não parava de tocar enquanto alguém tentava explanar a estratégia que ia fazer da banda os próximos Rolling Stones? E claro, quem nunca acabou a primeira banda que teve porque "não estávamos todos a trabalhar e a remar para o mesmo lado?"
  A verdade é que são tempos mágicos, os da primeira banda. São dos mais divertidos e suados que muita gente alguma vez terá na sua vida. Mas... a banda acaba e aquele membro, o que até tocava melhor, vai seguir em frente e vai querer fazer outra, mas vai acontecer a mesma coisa outra vez e outra vez, até se fartar e desistir. O facto é que a experiência da primeira banda é uma de crescimento. É suposto errarmos, batermos com a cabeça muitas, muitas vezes. Daí vêm as melhores histórias. Mas também é suposto aprendermos. A estratégia tem de crescer, também o método tem de evoluir e a capacidade de melhorar. Só há uma coisa que tem de se manter igual é o amor ao que fazemos. Infelizmente, para muita gente a primeira banda é um trauma, uma sombra que não conseguem sacudir, algo que está ali, presente, a servir de medida para todas as decisões que vão tomar em projectos futuros, e por isso, se a primeira banda acabou então é esse o destino das seguintes.
  Enquanto professor de música, cabe-me não só ensinar a tocar, mas educar também na música e para a música e a primeira coisa é isto: NÃO SE CHAMA MUNDO DA MÚSICA. Se acham que é música que basta estão redondamente enganados. CHAMA-SE MUNDO DO ESPETÁCULO. As pessoas querem "ver" a música, não a querem só ouvir. Se quisessem só ouvir ficavam em casa no quentinho onde não se paga bilhete e as bebidas do frigorífico são fresquinhas e não custam 5 euros o copo. Vejam isto por outro lado, se retirarem o espetáculo visual à Madonna o que fica? Madonna é demasiado velha? Pronto, a Lady Gaga. Demasiado Pop? Os AC/DC!!! A produção é faraónica, do maior que já se viu. Sem um palco de 50 metros, fogo de artifício, um sino enorme e uma boneca insuflável gigante, não é preciso um estádio com 45 mil pessoas com corninhos vermelhos a piscar, nem um passadiço para o Angus correr.
  Outro mito é o de que é preciso ser-se um instrumentista perfeito, de grande conhecimento e velocidade, capaz de num solo mostrar todo o seu arsenal técnico. Pensem nas músicas mais emblemáticas que conhecem, pensem em quantos acordes têm, e na dificuldade real dos solos (se tiverem). A minha mãe não é uma ouvinte assídua de Rock, mas se ouvir a Back in Black sabe que é AC/DC. Toca-la não é propriamente física-quântica, no entanto é identificável e divertida. O próprio Gene Simmons, baixista dos KISS, disse que para ter sucesso no Rock não é preciso ser o melhor do mundo, basta saber o suficiente para conseguir chegar ao fim da música. As bandas de Punk Rock da Grã Bretanha, como os Sex Pistols, foram um excelente exemplo disso.
  Acima de tudo divirtam-se e não levem as coisas tão a sério. De todas as vezes que levaram as coisas "mesmo a sério" quantas é que resultaram? Escolham bem os músicos que vos vão acompanhar e desenvolvam uma relação de amizade com eles. A vida de músico é dura, ter amigos ao nosso lado vai ajudar imenso. Sejam criativos, inventem um "alter ego" com um nome artístico, ninguém nasce com o nome de "Freddy Mercury". Tracem o vosso perfil musical e montem a vossa imagem. Deem asas à vossa imaginação e visualizem como gostariam de ser se fossem músicos famosos e façam-no acontecer. Tentem criar um look vosso. Arranjem um mealheiro e metam moedas e notas sempre que puderem, o material decente não é barato. Experimentem sempre antes de comprar. Se comprarem novo tenham a certeza que é isso que querem, lá porque é novo e tinha um showcase no NAMM não quer dizer que seja bom. Se comprarem usado verifiquem se o estado em que está vale mesmo a pena o preço. Mantenham-se em forma, como escrevi atrás, a vida de músico é dura e não dá para aguentar noitadas, montagens, soundchecks e concertos se estiverem em baixo de forma. Motivem-se a praticar. Motivem-se a compor. Motivem-se a praticar e a compor com outros membros da vossa banda. Não sejam primas donas, pois se escolheram os músicos ideais, eles merecem confiança e querem o mesmo que vocês. Mas, mais do que tudo isto, não se esqueçam de onde vieram, mantenham sempre aquela irreverência e esforço da primeira banda. Mantenham o amor à música, mantenham a diversão, mas não deixem que a vossa primeira banda dite o que vai acontecer com todas as outras.

See you all on the Guitarway.
  

quarta-feira, 9 de abril de 2014

"Que $#%& de réplica, ó maninho!"


Comprar réplica ou guitarra de gama média/baixa?

Quando se dá aulas de guitarra, esta é uma pergunta que de vez em quando pode surgir. Os alunos, especialmente os mais jovens, assim como os pais, querem sempre (como todos nós) arranjar a melhor guitarra pelo menor preço possível. É difícil saber onde procurar, especialmente quando se está a começar, e de vez em quando lá aparecem umas Zippy ou umas Stagg compradas no Media Market ou na Fnac. Outras vezes, mesmo em lojas de música, os vendedores lá conseguem impingir ao pai mais desatento um fabuloso starter kit da Squier que consiste num remo com cordas e uma caixa amplificada cuja distorção parece vir de um speaker roto. Umas palhetas, uma strap de má qualidade, um suporte e uns quantos livros a dizer Squier by Fender atiram areia para os olhos de quem não sabe o que acabou de comprar. A primeira guitarra é fulcral para o desenvolvimento do guitarrista em aprendizagem. Para quem está de fora, os 150/200€ pagos pelo kit, representam um esforço extra que será recompensado com a ascensão ao estrelato potenciada pelo dito remo. Se a primeira guitarra apenas servir para começar e não para progredir até um certo ponto, acabaram de ir uns quantos euros para lixo, que fariam muito jeito na compra de algo melhor.

Para quem se interessa pelo assunto e começa averiguar e aprender, descobre todo um mundo maravilhoso de sonhos e fantasias, que é o mundo dos guitarristas! Quando assim é, surge o interesse e começa-se a procurar o tão desejado machado que vai permitir dar o salto. A forma mais fácil e óbvia é na internet, desde o conforto do lar. E então numa pesquisa mais extensa lá surge a Gibson Les Paul Custom XPTO 2000 RS TURBO com pickups EMG Hot-rod Killer Nazgul Shredder 5, que alguém está a vender no OLX a 400€. Após uma investigação das fotografias, a guitarra diz "made in USA"... e agora? A descrição diz réplica, e o vendedor diz que a guitarra é muito boa. Réplica não significa que é igual? Após uma busca de réplicas, aparecem os site chineses cheios de grandes maquinões que custariam 20000€ como a Frankestein do Eddie Van Hallen, por 200$ mais portes. E então pensa-se: as guitarras de gama baixa da Ibanez, da Jackson, da Epiphone, da Squier, são feitas em países asiáticos. Uma réplica feita na China de repente não parece uma ideia tão má. É tudo feito na China, desde as sapatilhas à roupa de marca! Só que aí está o problema. Uma marca registada, com controlo de qualidade, é feita em fábricas por mão de obra legal e paga. A contrafação (as réplicas) é feita em fábricas por mão de obra ilegal, menor e mal paga, com 0 controlo de qualidade. O diabo está nos detalhes, e as grandes guitarras têm muitos diabos. O certo é que falham sempre nos pormenores e às vezes até no nome da marca...

Por outro lado, existem os seguintes problemas na aquisição dessas guitarras:
ALFÂNDEGA!!! Os magníficos serviços portugueses de inspeção aduaneira que chegam a reter relógios binários porque acham que são bombas. Importar uma guitarra de contrafação é um risco, pois é ilegal e pode ser confiscada, ficando o desgraçado do consumidor que se deixou enganar docemente pelo vendedor. Outro dos perigos é a má comunicação e o terrível serviço pós-venda que esses sites oferecem. Se encomendarmos uma Fender Stratocaster Deluxe verde estamos sujeitos a receber uma Fender Telecaster amarela, e para trocar é um processo muito demorado, se o vendedor responder à reclamação. Digamos que comprar uma réplica, é uma lotaria. Pode saír uma boa guitarra como um insulto a todos nós...

Portanto, as guitarras da gama mais baixa devem ser evitadas, os starter packs também, assim como as réplicas e as guitarras à venda em hipermercados e lojas de electrodomésticos. O melhor mesmo são as guitarras de gama média/baixa, acima dos 250 euros, ou então guitarras usadas de gama média, desde que sejam experimentadas previamente. Lembrem-se que acima de tudo, mais vale esperar um pouco e comprar algo melhor do que ser impaciente e arranjar algo que não nos permita evoluir.

See you all on the Guitarway!